Óleos Vegetais
Utilização de óleos vegetais como bases lubrificantes
O bserva-se atualmente um enorme esforço mundial
para a redução da dependência dos produtos
do petróleo, para minimizar o impacto da
produção de materiais no meio ambiente.
As discussões sobre questões ambientais, inseridas
no amplo conceito de desenvolvimento sustentável,
ganham intensidade cada vez maior. Segundo Maimon,
“o desenvolvimento sustentável busca simultaneamente
a eficiência econômica, a justiça social e a harmonia
ambiental”. Mais do que um novo conceito, o desenvolvimento
sustentável é um processo de mudança, no qual
a exploração de recursos, a orientação dos investimentos,
os rumos do desenvolvimento ecológico e a mudança
institucional devem levar em conta as necessidades
das gerações futuras.
O Brasil já está participando desse esforço mundial,
sobretudo na geração de energia. Contudo, com
o desenvolvimento do país, está ocorrendo um crescimento
da necessidade brasileira por óleos lubrificantes.
A expansão do mercado de óleos lubrificantes no
Brasil não tem encontrado sua contrapartida na produção
nacional de óleos básicos, devido, entre outras razões,
à falta de investimentos no setor. Esse panorama
incentiva a importação de bases minerais e sintéticas
para óleos lubrificantes, tornando essa ação uma alternativa
recorrente.
Uma opção para a reversão dessa tendência é a
substituição da base mineral por bases vegetais. A utilização
de bases vegetais nos óleos lubrificantes traz muitos
benefícios ao país com o desenvolvimento de tecnologias
próprias e agregando valor a produtos típicos nacionais,
em uma perspectiva sustentável. O uso das bases vegetais
pode gerar empregos para todos os níveis sociais
da população, promover desenvolvimento no interior do
Brasil, evitando o êxodo rural, e facilitar uma melhor distribuição
de renda.

Em relação ao meio ambiente, as bases vegetais
são recursos renováveis, menos tóxica e são mais biodegradáveis
que as de origem mineral.
No aspecto econômico, a plantação das oleaginosas
deve respeitar aspectos climáticos, do solo e culturais de
cada região do Brasil, para que se tenha um preço mais
viável desses óleos em relação aos óleos minerais.
A despeito dos benefícios provenientes do uso dos
óleos vegetais como base para lubrificantes, não é qualquer
óleo vegetal que pode ser empregado na lubrificação.
Para que um material atue como um lubrificante é
necessário que ele apresente características físico-químicas
bem definidas, tais como: viscosidade, índice de
viscosidade, ponto de fulgor, índice de acidez, ponto de
fluidez, estabilidade oxidativa, volatilidade etc.
Os óleos vegetais são formados predominantemente
de produtos de condensação entre glicerol [C3H5(OH)3]
e ácidos graxos (R-COOH) chamados de triglicerídeos
(90% a 98%). Além desses, existem os chamados não glicerídeos,
como os fosfatídeos, esteróides, dentre outros.
Tecnicamente, a utilização de óleos vegetais como
base para óleos lubrificantes torna-se uma opção interessante
na substituição das bases minerais, pois as
bases vegetais apresentam alto índice de viscosidade,
baixa volatilidade e elevado ponto de fulgor, além de serem
mais biodegradáveis que os óleos minerais, como
destacado anteriormente. Porém, os óleos vegetais, por
apresentarem duplas ligações em sua estrutura, apresentam
menor estabilidade oxidativa do que os óleos minerais,
gerando compostos insolúveis, o que aumenta a
viscosidade e a acidez do produto, além disso, diversos
óleos vegetais apresentam alto ponto de fluidez.
Neste trabalho, foram estudados os óleos vegetais
de mamona, algodão, polpa de macaúba, amêndoa
de macaúba, babaçu bruto, palma, maracujá,
indaiá e macadâmia. Foram realizados os ensaios
de viscosidade cinemática a 40 ºC e 100 ºC, índice
de viscosidade, demulsiblidade, espuma, índice de
acidez, ponto de fluidez, ponto de fulgor, cor ASTM,
absorbância e densidade.

Os resultados foram tratados
estatisticamente, empregando o
método da análise dos componentes
principais (PCA). Esse procedimento
permitiu avaliar a similaridade
desses óleos com algumas bases
minerais e sintéticas utilizadas na
formulação de óleos lubrificantes e,
consequentemente, a capacidade
lubrificante dos óleos testados em
função da sua aplicação potencial.
A análise de componentes
principais (PCA) é uma técnica estatística
que possibilita encontrar
padrões em dados formados por
muitas variáveis. Esse processo
permite projetar o espaço original
de variáveis num espaço de dimensão
mais reduzida. As variáveis derivadas
das originais são designadas
componentes principais. O procedimento
de PCA faz uma partição da
variância nos componentes principais,
sendo que cada componente
principal é calculado de maneira a
reter a maior quantidade de variância
presente nas variáveis originais.
Geometricamente os componentes
principais podem ser vistos
como projeções dos dados originais
sobre eixos ortogonais (loadings) que
cobrem o espaço das variáveis. O primeiro
eixo é determinado para capturar
o máximo de variância passando
através das zonas mais densas dos dados. O segundo componente
principal é determinado por meio do
mesmo critério, com a restrição de
que deve ser ortogonal em relação
ao primeiro.Vale ressaltar que, como
a dispersão das variáveis obtidas e a
natureza destas é expressa em unidades
de medidas não comparáveis,
faz-se uma normalização dos dados,
tornando-as adimensionais com média
nula e variância unitária.
Os resultados das propriedades
físico-químicas obtidas para os reportados
na tabela 2, na qual os óleos
vegetais são representados por
números de 1 a 9.
Esses dados foram analisados
empregando-se a técnica
PCA, e dessa análise foi possível
notar a similaridade entre diversas
propriedades dos óleos de origem
vegetal e mineral.

Verificou-se uma boa similaridade
entre os óleos vegetais 2, 5,
6 e 7 e os óleos básicos minerais
estudados, o que torna esses óleos
eletivos para uso potencial em
lubrificação. O próximo passo será
realizar um estudo da estabilidade
termoxidativa desses óleos.
Várias estratégias podem ser
utilizadas para modificar as propriedades
físico-químicas dos óleos vegetais,
no intuito de adequá-los às
aplicações ou, até mesmo, ampliar
o seu espectro de aplicação. Uma
dessas estratégias é o uso de aditivos.
Nesse sentido, o estudo de
aditivos que melhorem as características dos óleos vegetais, tais
como estabilidade oxidativa e ponto
de fluidez dos óleos vegetais é necessário.
São necessários também
estudos de mecanismos orgânicos
que alterem os sítios oxidativos dos
óleos vegetais, tais como proposto
por Sharma e colaboradores representado
na figura 3.
Com o estudo, notou-se que os
óleos vegetais estudados apresentam
diversas características desejáveis
para a sua utilização como óleo base
para lubrificantes, sendo necessário
o estudo da estabilidade termoxidativa.
Existe uma grande expectativa
para o desenvolvimento desses óleos,
seja por meio do uso de aditivos
e/ou alteração na estrutura química
das moléculas de triglicerídeos.
Douglas L. McGregor é químico e gerente de
Serviços Técnicos & Marketing de Lubrificantes
para América Latina da Afton Chemical.